
A ilha da Boa Vista é a terceira maior de Cabo Verde e a menos povoada. Assente numa extensa plataforma subaquática, é a região do arquipélago que ostenta a maior biodiversidade e os recursos em melhor estado de conservação. A tranquilidade, porém, pode estar por um fio. A aprovação de projectos hoteleiros para mais 30 mil camas, a construção de um aeroporto internacional e a pressão política para que sejam desclassificadas algumas áreas protegidas ameaçam inundar a ilha de turistas.
Centenas de tartarugas-comuns encontram na Boa Vista o território ideal para desovar, entre Junho e Novembro. Para acompanhar o fenómeno, o biólogo Pedro López trocou Espanha pela Boa Vista, desdobrando-se em trabalhos para a associação Cabo Verde Natura 2000, o Instituto Canário de Ciências Marinhas e a Fundação Universitária de Las Palmas.
“Desde 1992 foram marcadas mais de cinco mil fêmeas numa área que compreende 5 a 10 km de costa”, diz. Na tradição local, estão enraizadas as capturas ilegais de aves e tartarugas, [1] que persistem devido à débil fiscalização. Mas os novos projectos podem provocar danos mais persistentes.
As praias e ilhéus da Boa Vista acolhem ainda aves emblemáticas, como o alcatraz-pardo [2] ou a Calonectris edwardsii, [3] uma espécie endémica. Pedro López acompanha também estas populações, identificando problemas de conservação.
António Sá
in “National Geographic Portugal”, nº 72, Março 2007
notas:
[1] “… não há palavras para descrever o acto de barbárie que é a matança das tartarugas, um dos piores que já me foi dado ver, se não o pior.”, diz Fernando Peixeiro, jornalista em Cabo Verde. Quem não for impressionável pode ler o relato no
[2] Sula leucogaster
[3] Cagrra-de-cabo-verde
admário costa lindo